Medidores de potência: o que saber antes de comprar – parte 1

Os medidores de potência estão ganhando as estradas e trilhas brasileiras. Ainda são caros e difíceis de encontrar, mas já deixaram de ser algo exótico. Hoje, o dispositivo é visto nas bikes de muitos praticantes que buscam refinar o treinamento, seja no ciclismo, mountain bike ou triathlon.
As vantagens e possibilidades com um medidor de potência são amplas. Essa ferramenta não é apenas para ciclistas de elite. Desde que seus dados sejam bem interpretados, ela irá beneficiar praticantes de variados níveis.
Ao longo dessa série de três textos, veremos como escolher o medidor de potência ideal para a sua bike e quais cuidados ter em mente na hora da compra; em seguida, os primeiros passos, como configurar seu GPS, como e quando calibrar o medidor, quais dados acompanhar e o significam os termos; por fim, no último texto, falaremos sobre a parte mais complexa: como analisar e interpretar os inúmeros dados que resultam dos treinos e provas com potência e como utilizar tudo isso no seu treinamento.
O que é um medidor de potência?
São dispositivos que medem a energia ou o trabalho real que um ciclista está desenvolvendo sobre a bike. São diferentes dos monitores de frequência cardíaca, que medem o esforço fisiológico no exercício, e diferentes dos sensores de cadência e velocidade.
Monitores de frequência cardíaca exibem o quão taxativo aquele esforço é, naquele momento, para seu organismo. Mas não informam qual é exatamente resultado desse esforço. Com os medidores de potência, você saberá exatamente o trabalho realizado independente das condições do vento, temperatura, fadiga, etc. São, portanto, a forma definitiva de aferir a performance.
Em geral, os medidores possuem pequenos extensômetros que medem a mínima deformação de uma peça, como o pedivela, cubo, pedal, etc. Essa deformação acontece sempre que pedalamos, e o medidor é capaz de traduzir esse valor em torque, que multiplicado pela velocidade (cadência, por exemplo) resulta na leitura de potência em Watts.
Quem precisa de medidor de potência?
Os medidores permitem que atletas e treinadores alcancem um nível superior no treinamento. Não necessariamente um treinamento melhor, mas com certeza um treinamento com mais controle sobre as variáveis, com uma compreensão bem mais aprofundada da performance. Se você é um praticante empenhado, que treina com seriedade e busca evoluir no seu esporte, considere-se dentro do público alvo para uma ferramenta destas.
No meu trabalho com treinamento e planilhas, vejo atletas dedicados, que realizam os treinos com bastante rigor e esmero, mas que possuem apenas o monitor de frequência cardíaca. Sim, é possível realizar um excelente treinamento e evoluir bastante desta maneira, mas chega um momento em que precisamos trabalhar sobre medidas precisas, dados concretos e deixar de lados as estimativas e adivinhações. Com potência, não há espaço para dúvidas.
Em qual bike instalar o medidor
Nenhum medidor disponível no mercado tem compatibilidade real entre as bikes de asfalto e trilha. Se você comprou um medidor para sua bike de estrada, seja qual for, é bastante provável que ele não possa ser usado no mountain bike e vice-versa.
Portanto, sempre recomendo que você tenha o medidor na bike que mais utiliza para treinar, especialmente aquela com que faz os treinos mais específicos. Para quase todos os praticantes que conheço e com quem já trabalhei, a melhor opção era ter o medidor na bike de estrada. Isso não impede, porém, que você tenha medidores em duas ou mais bikes – além do custo, claro.
Sobre precisão, exatidão e confiabilidade
É de extrema importância que seu medidor de potência seja confiável. Isso significa que 200W hoje sejam 200W amanhã, e 200W no mês que vem. Vamos a três exemplos:

Digamos que o ciclista esteja gerando 250W, mas o medidor está lendo 260W. Ao colocar 500W, o medidor mostra 520w. É uma margem de erro constante, regular. Não é uma situação ideal, mas a margem de erro é sempre a mesma – 4% nesse exemplo. Por isso, esse medidor é preciso (pois sempre erra os mesmos 4%), mesmo que não seja exato (pois está 4% fora da realidade). É perfeitamente possível confiar nos dados de potência, pois 200W hoje será 200w amanhã, mesmo que esses 200W não correspondam à realidade.

Agora, pense que o ciclista esteja colocando os mesmos 250W, e o medidor está mostrando 250w. Bastante exatidão, certo? Mas pouco depois ele mostra 265W para os mesmos 250W que o ciclista entrega; mais tarde, passa a mostrar 240W. Ou seja, não há regularidade na leitura, a margem de erro é totalmente inconstante e varia muito para cima ou para baixo. O medidor não tem nenhuma confiabilidade.

O ideal é que ele alie precisão e exatidão. Ou seja, mostre a potência que corresponda à realidade, com uma margem de erro muito pequena. Atualmente, a maioria dos modelos garante margem de erro abaixo dos 2%; alguns até menos, com 1% ou menos.

Tipos e modelos de medidores
Há diferentes marcas e modelos no mercado, com diferentes soluções tecnológicas. Praticamente todos os medidores confiáveis estão localizados em um dos seguintes locais: no pedivela (seja no braço, na aranha ou no movimento central), nos pedais ou no cubo traseiro. A seguir, um pequeno resumo dos modelos que podem ser encontrados no mercado:

  • Quarq (aranha do pedivela). Marca da SRAM, possui diferentes modelos na linha e é um dos medidores de potência mais vendidos no mundo, atualmente. São conhecidos por serem precisos, confiáveis e duráveis. Há modelos para ciclismo e MTB em diferentes configurações.

  • Stages (braço do pedivela): uma das marcas mais populares, graças ao preço razoavelmente acessível e pela representação oficial no Brasil. Em geral, são confiáveis, mas sofrem de um problema muito conhecido: os falsos picos de potência. Eles acontecem quando a bike sofre grandes impactos enquanto o ciclista não está pedalando. Há versões para ciclismo e mountain bike. Esteja atento às três gerações: a primeira geração tinha problemas com a tampa da bateria, o que foi resolvido na segunda geração. A terceira geração, lançada em 2018, tem avanços na eletrônica e no firmware. Torcemos para que os picos de leitura sejam corrigidos nessa nova versão.

  • PowerTap G3 e outros modelos (cubo traseiro). Estão no mercado há muitos anos e são bastante confiáveis e duráveis. Há modelos anteriores ao G3, com 10 anos de uso e ainda rodando por aí, firmes e fortes. Há modelos disponíveis para bikes de estrada com ou sem disco. A Saris, empresa por trás da CycleOps e da PowerTap, anunciou que em breve voltará a ter modelos para mountain bikes. A desvantagem desse modelo é que o ciclista fica dependente da roda em que está o cubo. Se quiser ter pares de roda de treino e prova, ou se precisar trocar a roda, ficará sem potência.

  • Garmin Vector (pedal): um dos modelos mais conhecidos e populares em todo o mundo e que possuem representação oficial no Brasil. São famosos também pela enorme quantidade de dor de cabeça que causou a ciclistas ao redor do mundo. A primeira geração (Vector 1) era altamente problemática. A segunda geração (Vector 2 e Vector 2S) ainda é muito encontrada por aí, e funciona bem na maior parte do tempo. É necessário possuir um torquímetro e um adaptador adequado para a instalação correta do pedal (sem a qual a leitura de potência estará realmente incorreta). A terceira geração (Vector 3 e Vector 3S) chegou prometendo bastante, com excelentes características, e poderia ser uma das melhores opções entre todas as disponíveis. Mas, infelizmente, apresentou muitos problemas, incluindo um recall. Somente para ciclismo de estrada.

  • PowerTap P1 (pedal): embora seja um pequeno trambolho, os pedais PowerTap são conhecidos por serem bastante confiáveis e duráveis. O preço é atrativo, mas só há modelos para ciclismo de estrada.

  • Favero Assioma e bePRO (pedal): também disponíveis apenas para estrada, os modelos da Favero são mais discretos e são conhecidos pelo bom funcionamento.

  • Power2Max e FSA (aranha do pedivela): a alemã Power2Max também tem ganhado mercado com seus excelentes modelos e linha ampla para ciclismo e MTB. A FSA utiliza a mesma tecnologia da Power2Max, com a vantagem de ter importação oficial no Brasil com o modelo Powerbox.

  • Team ZWatt (aranha do pedivela): seus medidores são confiáveis e com custo mais moderado, mas muito difíceis de encontrar. Somente modelos para estrada.

  • SRM (aranha do pedivela):  a pioneira marca alemã fabrica medidores de potência desde a época em que o Tour ainda era vencido com bikes de cromo. São reconhecidos pela construção impecável, durabilidade definitiva e precisão impecável. E claro, pelo preço absurdo

  • Pioneer (braço do pedivela): muito popular no pelotão profissional graças aos acordos com as equipes, a Pioneer produz excelentes medidores de potência para bikes de estradas. Há análises muito avançadas, mas que só podem ser acessadas na unidade GPS própria da Pioneer e no software próprio.

  • 4iiii (braço do pedivela): ligeiramente mais baratos que os Stages, os medidores 4iiii também prometem qualidade com custo razoável, mas ainda são pouco vistos entre os ciclistas brasileiros.

  • WatTeam (braço do pedivela): Esses medidores são vendidos na forma de um kit instalado pelo próprio usuário. Os sensores são colados no pedivela e a calibração é feita utilizando um método muito interessante com recipientes de água. Embora sejam também razoavelmente acessíveis, não estão entre os mais confiáveis e precisos.

  • Rotor (braço do pedivela e movimento central): seus modelos para estrada e MTB possuem representação no Brasil. Mas o preço é bastante alto, mesmo lá fora.

  • Shimano (braço do pedivela): atualmente disponível somente na linha Dura-Ace, os medidores de potência da Shimano receberam algumas críticas na imprensa especializada internacional. Não por serem ruins – pelo contrário – mas talvez pela expectativa maior que sempre recai sobre os produtos da marca japonesa. Foram relatados alguns casos de imprecisão na leitura, algo que acontece com praticamente todas as marcas. Mas, novamente, algo que não era esperado de uma marca tão reconhecida pela confiabilidade e engenharia de ponta. Há distribuição oficial no Brasil.

  • XCadey (braço do pedivela): sim, temos uma opção chinesa, barata, bonita… e ruim, muito ruim. Seus dados não são confiáveis e com um pouco mais de dinheiro o ciclista poderá partir para um Stages, por exemplo. Não recomendo.

  • LIMITS (espaçador do pedal): essa pequena encrenca vai entre o pedal e o pedivela. Teoricamente, seria uma excelente opção: barata, razoavelmente fácil de instalar (apesar de exigir torque preciso) e pode ser movida entre as bikes de estrada e MTB de acordo com as necessidades do usuário. O problema é que a coisa simplesmente não funciona direito. Não recomendo.

  • PowerPod: mede a potência indiretamente, por força opositiva. Na verdade, ele apenas estima a potência. Embora funcione bem, não é confiável o suficiente. Precisamos confiar nos dados 100% do tempo, caso contrário a análise da performance ficará prejudicada. Não recomendo.

Um lado, dois lados
Vários modelos possuem uma versão mais barata que afere a potência somente de um lado. É o caso, por exemplo, dos Stages, 4iiii, e dos pedais Garmin Vector 2S e 3S. Parece estranho, mas funciona muito bem e não há grande prejuízo nos dados. O sistema duplica a leitura da força para resultar uma leitura total da potência.

O que mais é necessário
Você precisará de pelo menos mais duas coisas para fazer uso do seu medidor de potência: uma unidade GPS compatível com ANT+ (Garmin, Wahoo, Bryton, Stages Dash etc) e alguma plataforma para analisar seus dados (Training Peaks, Cycling Analytics, Strava Summit, Golden Cheetah etc). Falaremos mais sobre esses detalhes nos próximos dois textos de nossa série.

Fonte: Ativo

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